Os doze agitados e históricos meses transbordaram do calendário, em movimentos
da política e da sociedade que tendem a ecoar em 2026 e durante muito tempo

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Existem anos, na história da civilização, que transbordam de seu tempo — não cabem na contagem gregoriana do calendário de janeiro a dezembro. De tão ruidosos, ecoam no futuro. O jornalista e escritor Zuenir Ventura criou uma bela alcunha para um período decisivo da história do século XX: 1968 — O Ano que Não Terminou. Foi um tempo de belezas e horrores, da Tropicália de Gil e Caetano e do AI-5, de Divino, Maravilhoso e do ataque da polícia contra os atores da peça Roda Viva. Aquele recorte, aqueles doze meses, nunca findou, e não por acaso ainda hoje é lembrado como referência. Pode-se dizer que 2025, prestes a dar adeus, também se encaixa nesse modelo — um intervalo que, de algum modo, encaminha o que teremos pela frente. Bem-vindo, então, a 2025 — o ano que nunca terminou.
Tome-se como exemplo mais vigoroso desse movimento de permanência, de ensaio para o que virá, a condenação pela Primeira Turma do STF do ex-presidente Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe de Estado. Tê-lo preso, impedido de se candidatar a cargos públicos, é janela para um terremoto na direita brasileira, em busca de um candidato a presidente para concorrer contra Lula, que sonha estar no Palácio do Planalto pela quarta vez. A ideia de pavimentar o horizonte a partir de 2025 pode ser colada também aos passos de Donald Trump, que fez e aconteceu com a guerra de tarifas, avançou e recuou —e, de algum modo, remodelou o tabuleiro geopolítico das próximas temporadas, o que inclui o dedo americano na promessa de paz no Oriente Médio, na tentativa de algum acordo entre Rússia e Ucrânia e nos solavancos na Venezuela.
De modo a não perdermos o tom da prosa, deve-se também imaginar o ensaio geral de 2025 em áreas menos mercuriais, mas igualmente interessantes. O Oscar de filme internacional para o belíssimo Ainda Estou Aqui e a torcida por Fernanda Torres são atalho inegável para a carreira de sucesso de O Agente Secreto e Wagner Moura. No esporte, acompanhamos a infância do tenista João Fonseca, que em 2026 viverá a pressão de quem saltou da posição de número 145 do ranking mundial para o 24º lugar. E Carlo Ancelotti, o italiano que treina a seleção? Entronizado em maio na canarinho, fará valer sua competência em junho e julho do ano que vem, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá.
Parece realmente não haver dúvida: foram erguidos, agora, os alicerces — ainda que frágeis — do amanhã. Vale lembrar, como bordão do caminho a ser trilhado, uma das frases espirituosas e irônicas dos estudantes de Paris em maio de 1968, que não cessou e não cessará: “Corram, camaradas, o velho mundo está atrás de vocês”. Definitivamente, 2025 não terminará, e por isso mesmo é sempre bom relembrá-lo com inteligência e emoção.
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