Não dá, metaforicamente, para simplesmente fugir do fogo

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Havia imensas expectativas em torno da COP30, a Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas. Depois de três décadas, o evento que começou no Brasil, com a ECO-92, teria como palco Belém, a capital do Pará. A escolha teve um caráter didático. De alguma forma, as delegações foram imersas nos desafios do desenvolvimento sustentável no entorno da Floresta Amazônica (além, como tanto se falou, das dificuldades de hospedagem e preços nas alturas). Houve muitos problemas de infraestrutura, que levaram a ONU a registrar queixas sobre goteiras e mau funcionamento do ar-condicionado. No penúltimo dia da conferência, quando os negociadores já haviam abandonado gravata e paletó, um incêndio obrigou à evacuação do principal pavilhão, na chamada Blue Zone.
Ao redor, durante as duas semanas de celebração e atenção, despontavam festa e protesto. A Marcha Global pelo Clima levou 70 000 pessoas às ruas belenenses. E 3.000 indígenas, cuja imagem mais forte era a do líder caiapó Raoni, de 93 anos, deram o tom em um dos salões, chamando atenção para a emergência ambiental. Para o presidente Lula, seria “a COP da verdade”, momento para “derrotar o negacionismo climático e científico de países como os Estados Unidos”. A missão central era realizar o balanço das metas climáticas estabelecidas em 2015, ano da assinatura do Acordo de Paris, que selou o compromisso global de deter o aquecimento em 1,5 grau acima da média registrada durante a Revolução Industrial. Ao final da conferência, o documento central — assinado por 129 países e batizado de “Mutirão” — reafirmou o compromisso com baixas emissões, alinhado à meta de 1,5 grau. Não mencionou, porém, a redução no uso de combustíveis fósseis e tampouco abordou o enfrentamento do desmatamento ou o aumento para 1,3 trilhão de dólares no financiamento destinado aos cuidados para que a humanidade evite o precipício. A COP30 não resolveu tudo, mas mantém firme a engrenagem positiva em andamento. Não dá, metaforicamente, para simplesmente fugir do fogo — como fizeram as pessoas assustadas com as labaredas acidentais da Blue Zone.