Está em jogo, nesse espetáculo de intimidação (que inclui a autorização de ações da CIA em território venezuelano), a intenção da Casa Branca de cravar sua marca — ou sua proteção, no jargão oficial — no “nosso hemisfério”, como proclamou o secretário da Defesa, Pete Hegseth. Fortalece essa intenção a atraente possibilidade de empresas americanas voltarem a explorar as imensas reservas de petróleo venezuelano no caso de afastamento de Maduro, déspota da ala esquerdista que permaneceu no cargo mesmo tendo perdido a eleição no ano passado e que trata a ferro e fogo qualquer sopro de oposição. Para mal de seus pecados, a maior líder oposicionista do país, María Corina Machado, ganhou o Nobel da Paz de 2025 e, de surpresa, reapareceu em Oslo apoiando plenamente as ações americanas no Caribe, depois de viver um ano escondida em seu país. Deposição, expulsão, humilhação e prisão são as rimas com as quais Maduro, cantor nas horas vagas, está tendo que conviver neste seu annus horribilis.

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O Mar do Caribe voltou mais de um século no tempo este ano, com a presença de uma frota naval de altíssimo poder de fogo despachada por uma grande potência para assombrar e, em última instância, depor o líder de outro país — prática do século XIX que ganhou o nome de “diplomacia das canhoneiras”. Nesta versão, são os Estados Unidos que mantêm nas águas turquesas logo acima do continente seu maior porta-aviões, diversos outros barcos de guerra e 15.000 soldados encarregados de atirar para matar contra barcos supostamente carregados de drogas — o que têm feito com chocante frequência — para, na explicação oficial, combater o narcotráfico internacional e seu grande chefe, Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, contra quem Donald Trump já pronunciou nada veladas ameaças de deposição à força. Há doze anos no poder, Maduro convocou militares e milícias civis para a defesa e esperneia, com gestos grandiosos e apelos em inglês macarrônico, para convencer Trump a encerrar a operação caribenha — que, ampliada, também passou a apreender petroleiros transportando o produto vital para a sobrevivência econômica da Venezuela.
Tome-se como exemplo mais vigoroso desse movimento de permanência, de ensaio para o que virá, a condenação pela Primeira Turma do STF do ex-presidente Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe de Estado. Tê-lo preso, impedido de se candidatar a cargos públicos, é janela para um terremoto na direita brasileira, em busca de um candidato a presidente para concorrer contra Lula, que sonha estar no Palácio do Planalto pela quarta vez. A ideia de pavimentar o horizonte a partir de 2025 pode ser colada também aos passos de Donald Trump, que fez e aconteceu com a guerra de tarifas, avançou e recuou —e, de algum modo, remodelou o tabuleiro geopolítico das próximas temporadas, o que inclui o dedo americano na promessa de paz no Oriente Médio, na tentativa de algum acordo entre Rússia e Ucrânia e nos solavancos na Venezuela.