Extremos marcaram 2023 | VEJA


Ao se instalar, há dois anos, na Casa Rosada, o autoproclamado anarcocapitalista Javier Milei foi logo avisando: a implementação de seu projeto radical de remoção sumária da presença do Estado de quase todos os aspectos da vida nacional, extinção e esvaziamento de órgãos públicos, suspensão de controles financeiros e plena abertura econômica iria piorar o dia a dia dos argentinos, antes de melhorar. Dito e feito: 2025 foi um ano em que a pobreza aumentou, as aposentadorias diminuíram e o vasto colchão de benefícios sociais estendido por governos peronistas se esvaziou. À insatisfação popular se somaram escândalos, sendo os principais o chamado “criptogate”, quando uma criptomoeda provida pelo próprio presidente, a $LIBRA, desabou em poucas horas, provocando prejuízos a milhares de investidores, e os áudios vazados indicando pagamento de propinas à primeira-­irmã, Karina Milei, figura-chave do governo. De problema em problema, em agosto ele precisou ser retirado às pressas de uma carreata sob uma chuva de pedras e garrafas. Um mês depois, saiu derrotado na eleição para o Legislativo da província de Buenos Aires. Quando tudo parecia ir por água abaixo, porém, Milei deu um inesperado salto duplo carpado e saiu de pé da votação nacional, encerrando o ano mais forte do que começou.

A virada veio em outubro, quando seu partido, A Liberdade Avança, deixando para trás a condição de nanico, conquistou 64 das 127 cadeiras em disputa na Câmara e treze das 24 do Senado — comprovação cabal de que a maioria dos argentinos, mal saída do fundo do poço em consequência de governantes incompetentes, apostou na vertiginosa queda da inflação e na ainda tímida retomada da economia sob Milei (sem falar no generoso apoio dos Estados Unidos) e concluiu que ruim com ele, pior sem ele. “Iniciamos um novo capítulo da revolução libertária”, comemorou o presidente. O resultado facilita a aprovação de projetos controvertidos, complicada na composição anterior do Congresso, e enfraquece a oposição na derrubada de vetos presidenciais às suas propostas. Menos isolado e mais poderoso, Javier Milei mostrou que cresceu e apareceu.


De modo a não perdermos o tom da prosa, deve-se também imaginar o ensaio geral de 2025 em áreas menos mercuriais, mas igualmente interessantes. O Oscar de filme internacional para o belíssimo Ainda Estou Aqui e a torcida por Fernanda Torres são atalho inegável para a carreira de sucesso de O Agente Secreto e Wagner Moura. No esporte, acompanhamos a infância do tenista João Fonseca, que em 2026 viverá a pressão de quem saltou da posição de número 145 do ranking mundial para o 24º lugar. E Carlo Ancelotti, o italiano que treina a seleção? Entronizado em maio na canarinho, fará valer sua competência em junho e julho do ano que vem, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá.

Parece realmente não haver dúvida: foram erguidos, agora, os alicerces — ainda que frágeis — do amanhã. Vale lembrar, como bordão do caminho a ser trilhado, uma das frases espirituosas e irônicas dos estudantes de Paris em maio de 1968, que não cessou e não cessará: “Corram, camaradas, o velho mundo está atrás de vocês”. Definitivamente, 2025 não terminará, e por isso mesmo é sempre bom relembrá-lo com inteligência e emoção.



Publicado em VEJA de 24 de dezembro de 2025,  edição nº 2976