A estratégia de André Mendonça para julgar os dois maiores escândalos da República
Ministro do STF tem nas mãos a responsabilidade de conduzir as investigações e punir os envolvidos nos casos Master e INSS
MISSÃO - André Mendonça: casos podem enredar autoridades de vários escalões, senadores, deputados e partidos políticos
Em 2019, ao ser questionado sobre o perfil do candidato a ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal, o então presidente Jair Bolsonaro disse que buscava alguém “terrivelmente evangélico”. André Mendonça, o escolhido, até hoje é confrontado com a expressão. Ele não se incomoda mais com o advérbio, um evidente exagero retórico do ex-capitão, mas sabe que sua conduta e suas decisões vão sempre repercutir na construção da imagem do segundo maior grupo religioso do país. Por isso, costuma dizer o ministro, agir com cautela é mais que uma obrigação para ele — especialmente depois de assumir o comando das investigações dos dois mais rumorosos escândalos dos últimos anos: o roubo das aposentadorias do INSS e a fraude do Banco Master. De agora em diante, o magistrado vai lidar com informações que podem ser letais para a carreira de certas autoridades, documentos que revelam o destino final dos bilhões de reais surrupiados dos idosos e parcerias político-financeiras com potencial de criar abalos institucionais — um gigantesco paiol que, em ano eleitoral, vai desafiar algumas de suas qualidades, a começar pela discrição.
APOIO - CPMI do INSS: aval para que informante fosse incluído no programa de proteção a testemunhas
De perfil reservado, Mendonça assumiu o caso Master há pouco mais de uma semana. Menos de 24 horas depois de receber os inquéritos, pediu informações à Polícia Federal sobre as descobertas já realizadas, instruiu policiais a não encobrir nenhum malfeito, agendou uma segunda reunião para planejar o cerco aos investigados e espera receber o primeiro relatório sobre os achados do escândalo ainda em fevereiro. Ele assumiu a relatoria do maior escândalo financeiro do país em meio a uma confusão sem precedentes no STF. O ministro Dias Toffoli, o antigo relator, deixou o caso após admitir ser sócio de um resort no Paraná que foi vendido a um fundo de investimento ligado ao ex-dono do Master, Daniel Vorcaro. Antes disso, Toffoli havia decretado sigilo sobre as apurações, se desentendeu com os policiais que investigam o escândalo após o vazamento de informações e anunciou uma série de decisões classificadas pelos próprios pares do tribunal como heterodoxas.
ARQUIVO - Vorcaro: amizades influentes, negócios escusos e fraude
Avesso a holofotes e entrevistas, Mendonça é dono de um perfil considerado pelos demais ministros como ideal para recolocar a investigação do Master nos trilhos. Ele já confidenciou que, se possível, vai evitar decisões que possam gerar impacto às vésperas das eleições. A preocupação se justifica, mas é improvável que o ministro consiga impedir medidas que possam influenciar. Uma das linhas de investigação do escândalo busca exatamente estabelecer as conexões que levaram fundos de previdência de alguns estados e municípios a fazer suntuosos investimentos no Master. Há a desconfiança de que caciques políticos locais tenham atuado para viabilizar os negócios em troca de propina ou apoio eleitoral. A lista de suspeitos inclui, entre outros, autoridades do Amapá, Amazonas, Brasília, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Bahia. No início do mês, por exemplo, a PF realizou uma operação que teve como alvo a Amapá Previdência (AmPrev), fundo dos funcionários públicos do estado que investiu 400 milhões de reais em ativos do Master. Um dos conselheiros da instituição é irmão do presidente do Congresso, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
CONEXÕES - Alcolumbre: irmão do senador é conselheiro de fundo investigado
Em ano de eleições, uma operação policial, um documento que vaza ou uma informação descontextualizada podem fulminar uma candidatura, criar embaraços e provocar toda sorte de conflitos. A investigação do Master já demonstrou que tem ingredientes para impulsionar qualquer uma dessas hipóteses. Na terça-feira 17, por exemplo, a Receita Federal confirmou que dados fiscais de parentes de ministros do STF foram acessados indevidamente, o que é crime. Até onde se sabe, André Mendonça não foi atingido pela suposta devassa. Um dos alvos teria sido o ministro Alexandre de Moraes e seus familiares. Moraes determinou a quebra de sigilo de quatro servidores públicos. A suspeita do magistrado é de que esses servidores teriam acessado informações de sua esposa, Viviane Barci, e tornado público um contrato de 129 milhões de reais que o escritório dela tinha com o Master. Ou seja, a investigação sobre o banco acabou atingindo de maneira indireta dois ministros do próprio Supremo — Toffoli e Moraes —, gerando um complicador a mais para um caso já bastante complicado.
CAUTELA - Lulinha: acusação contra o filho de Lula ainda carece de confirmação
André Mendonça já comprou algumas brigas desde que chegou ao tribunal, em 2021. Partiu dele, por exemplo, o único voto a favor de retirar Alexandre de Moraes do julgamento da trama golpista. Também partiu dele o entendimento de que os envolvidos nos ataques do 8 de Janeiro não deveriam ser condenados por golpe de Estado. O ministro é um crítico do ativismo do Supremo e, certa vez, disse em um evento no Rio de Janeiro que “o bom juiz tem que ser reconhecido pelo respeito, não pelo medo”. Não citou a quem se referia — nem precisava. Por uma daquelas ironias produzidas em Brasília, o poder que ele acumula agora com os inquéritos do INSS e do Master é comparável ao que Alexandre Moraes, o alvo do comentário, teve durante o governo Bolsonaro — o que tem assustado vários figurões.
Cabe a Mendonça, por exemplo, decidir se derruba a curiosa decisão do STF que permitiu que, entre os senadores, apenas Davi Alcolumbre tenha acesso ao acervo do celular de Daniel Vorcaro, que está preso em regime domiciliar. O ministro terá em mãos a lista de políticos com vínculos com o ex-dono do Master, o grau de relação e camaradagem de cada um com o empresário e todas as provas que Polícia Federal, Ministério Público e Banco Central reuniram contra a instituição financeira que foi liquidada em novembro do ano passado e deixou um prejuízo de mais de 50 bilhões de reais na praça. Quando foi indicado ao STF, Mendonça teve de aguardar quatro meses antes de ter o nome confirmado pelo Congresso porque o senador Davi Alcolumbre, então presidente da Comissão de Constituição e Justiça, com seu grupo político, trabalhava abertamente para sabotar a indicação. Quatro anos depois, o ministro garante a interlocutores não guardar ressentimentos de ninguém, nem mesmo de Alcolumbre.
MENSALÃO – O ministro Joaquim Barbosa conduziu com mão de ferro o mais longo julgamento da história do STF e, ao final de 53 sessões plenárias, que duraram mais de quatro meses, condenou ex-ministros do governo Lula, a antiga cúpula do PT e políticos de cinco partidos aliados do governo.
O magistrado já atua há oito meses como responsável pelas investigações que envolvem o bilionário escândalo do INSS, que lesou pelo menos 3 milhões de aposentados. Sindicatos e entidades de classe se uniram a lobistas e funcionários corruptos e montaram um engenhoso esquema que se aproveitava da fragilidade dos idosos para enganá-los. Estima-se que mais de 6 bilhões de reais foram desviados das já magras pensões a partir de descontos ilegais nos contracheques dos pensionistas. A apuração do caso já levou à demissão do ministro da Previdência, esbarrou num assessor do presidente do Congresso, envolveu um senador governista e, na mais barulhenta das descobertas, atingiu em cheio um dos filhos do presidente Lula. Em depoimento à polícia, uma testemunha contou que Fábio Luís da Silva, o Lulinha, recebia uma mesada de 300 000 reais por mês paga por um dos mentores do esquema para abrir as portas do governo para a quadrilha. Uma suspeita como essa, se confirmada, pode comprometer o projeto de reeleição do presidente. Em junho, Mendonça assumirá a vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Passarão pelo crivo dele pedidos de impugnação de candidaturas, denúncias de abuso de poder político e econômico e, em último estágio, cassação de mandatos e inelegibilidades.
EMENDAS – O ministro Flávio Dino herdou a relatoria de uma ação que contestava o antigo orçamento secreto. Por ordem dele, a Polícia Federal investiga dezenas de congressistas suspeitos de irregularidades na destinação de emendas parlamentares.
Ao ser informado sobre o depoimento que compromete o filho do presidente por parlamentares que integram a CPMI do INSS, Mendonça deu aval para que o informante, que se dizia ameaçado de morte, fosse incluído no programa de proteção a testemunhas. O presidente já foi instado a se pronunciar sobre o caso. Recentemente, afirmou em uma entrevista que, se estiver envolvido, o primogênito “vai pagar o preço porque a lei é para todos”. Interlocutores com acesso às investigações afirmaram a VEJA que, além da citação, a polícia ainda não encontrou evidências concretas de que Lulinha tenha praticado crime — mas as investigações não se encerraram. O filho do presidente se mudou para a Espanha logo depois que emergiu o escândalo e deve ser intimado em breve a prestar depoimento.
LAVA-JATO – O ministro Edson Fachin anulou, em 2021, todas as condenações de Lula na Lava-Jato depois de considerar que o então juiz Sergio Moro não devia ter conduzido o processo do petista. Com a decisão, o ex-presidente recuperou os direitos políticos e venceu a disputa de 2022.
O fato é que, de forma involuntária, as duas investigações somadas acabaram por transformar André Mendonça no ministro que pode influenciar no rumo das eleições de outubro. “Como são escândalos com amplo potencial de repercussão sobre diferentes atores de diferentes espectros políticos, o grau de pressão e cobrança que vai existir em cima do ministro será grande, porque as ações que ele pode tomar, especialmente no que diz respeito a sigilo e publicidade dos autos, podem ter clara implicação sobre o resultado eleitoral”, diz Rubens Glezer, professor da FGV Direito São Paulo e coordenador do centro de pesquisa Supremo em Pauta.
TRAMA GOLPISTA – No governo passado, o ministro Alexandre de Moraes conduziu vários inquéritos que investigaram — alguns investigam até hoje — Jair Bolsonaro e alguns de seus antigos assessores. O ex-presidente não conseguiu se reeleger e, depois de deixar o governo, foi condenado a mais de 27 anos de prisão.
No passado recente, ministros da Suprema Corte conduziram processos rumorosos que tiraram de cena figuras consideradas acima de qualquer suspeita e também recolocaram suspeitos de volta no cenário eleitoral. No escândalo do mensalão, Joaquim Barbosa se tornou tão popular ao conduzir o julgamento que levou a nata do governo Lula para a cadeia que teve seu nome ventilado como possível candidato à Presidência. Em 2022, a atuação de Alexandre de Moraes em inquéritos contra Jair Bolsonaro culminou com a derrota do capitão nas urnas e a posterior condenação do ex-presidente e de seus principais assessores à prisão. Edson Fachin, numa única decisão, permitiu que Lula recuperasse seus direitos políticos. Nos tempos atuais, Flávio Dino tem provocado um terremoto ao investigar o destino de recursos que os deputados e senadores enviam às suas bases. Agora é a vez de André Mendonça assumir o protagonismo. Às voltas com os casos Master e INSS, ele se inspira em um sermão do padre católico Antônio Vieira para explicar como pretende se conduzir diante de tamanha responsabilidade. “Pó que está em pé, não te esqueças que és pó e que serás deitado”. O ministro promete ser prudentemente evangélico, mas implacável no julgamento.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983