Hollywood é nossa: a construção do sucesso de ‘O Agente Secreto’ rumo ao Oscar
Com duas vitórias históricas no Globo de Ouro, filme é o novo exemplo de como a produção cinematográfica do país chegou tão longe
APELO GLOBAL - Wagner Moura no filme: trama no Recife de 1977 ecoa no mundo de 2026
Quando subiu ao palco do Globo de Ouro no domingo 11 para receber o prêmio de melhor ator em filme de drama, Wagner Moura fugiu ao protocolo do agradecimento feito em inglês e soltou algumas frases em alto e bom português. “Para todo mundo no Brasil assistindo isso agora: viva o Brasil, viva a cultura brasileira”, disse ele, exultante, com o troféu em mãos. A plateia formada por astros de Hollywood, do cineasta Steven Spielberg a estrelas como Julia Roberts e Leonardo DiCaprio, vibrou com o discurso, provavelmente sem entender muitas das palavras ditas. A honraria se soma a diversas outras conquistadas pelo ator baiano e pelo longa protagonizado por ele, O Agente Secreto, também premiado no evento americano na categoria de melhor filme em língua não inglesa. Com direção e roteiro do pernambucano Kleber Mendonça Filho, a produção sobre um professor universitário que retorna à sua Recife de origem sob disfarce, perseguido por simpatizantes da ditadura militar nos anos 1970, agora segue com a moral alta rumo ao Oscar, que anuncia seus indicados na quinta-feira 22.
A previsão mais modesta é de que o filme repita o mesmo feito de Ainda Estou Aqui, que no ano passado foi indicado em três categorias: filme do ano, atriz para Fernanda Torres e filme internacional — saindo vitorioso nesta última. Se for indicado ao Oscar de ator, Moura será o primeiro brasileiro a alcançar tal feito. E caso
O momento histórico de alta das produções e dos talentos nacionais tem seu impacto na vida dos brasileiros, do intangível orgulho de ver conterrâneos entre os melhores do mundo à cadeia econômica que o cinema move. Alcançar a aprovação internacional, especialmente a de Hollywood, não é fruto do acaso, mas de um trabalho de décadas, com muitos altos e baixos até atingir tanta repercussão positiva. Para chegar com força às premiações internacionais pelo segundo ano consecutivo, o cinema brasileiro precisou evoluir em várias frentes cruciais — tanto no mercado interno quanto lá fora.
DIAS DE GLÓRIA - Kleber (à esq.) e equipe: prêmios de melhor filme em língua não inglesa e melhor ator
Do ponto de vista local, a projeção conquistada por filmes nacionais tem tudo a ver com o progresso da própria indústria do audiovisual nos últimos anos. Puxado pelo cinema e pela televisão, o setor movimentou 70,2 bilhões de reais e gerou 608 970 empregos no país em 2024 — o que significa que já ocupa mais gente que a tradicional indústria automotiva. Essa expansão está em consonância com o que ocorre no mundo. O mercado global de cinema e streaming gerou 210 bilhões de dólares em 2025. Previsão da consultoria PwC aponta que o investimento de países afora os Estados Unidos na produção audiovisual, principalmente Índia e China, será a salvação da receita de bilheterias, que foi de 33 bilhões de dólares em 2024 para 42 bilhões em 2029.
O Brasil pode ser importante vetor desse crescimento — o que não deixa de conter certa ironia, já que o cinema nacional historicamente viveu ciclos de euforia seguidos de crises colossais, como o “apagão” causado pela extinção da malfadada estatal Embrafilme pelo governo Collor, nos anos 1990. Como resumiu o cineasta Cacá Diegues (1940-2025), “nosso cinema vivia de surtos com intervalos entre ciclos”. Aquela que sempre foi apontada como causa do desempenho errático — a dependência dos cineastas nativos de benesses estatais — continua a ser tópico que provoca debates ideológicos acalorados. Mas fato é que, nos últimos anos, o profissionalismo aumentou, bem como a força dos produtores privados — e até o Estado vem conseguindo calibrar de forma menos perdulária sua atuação no setor.
PIONEIROS - Walter Salles e Fernanda Torres: com o filme Ainda Estou Aqui, a dupla trouxe para o Brasil seu primeiro Oscar
Nas duas últimas décadas, a produção nacional se diversificou, com apostas que vão de comédias populares a filmes de gênero, do terror à distopia, e passou a criar laços mais estreitos com os grandes festivais europeus. As leis de incentivo continuam a ter peso como indutoras da produção — a propósito, não por meio da tão atacada Lei Rouanet, como se propala de maneira mal informada (já que ela não prevê apoio a longas-metragens de ficção), mas do fundo de incentivo ao audiovisual da Ancine, a agência oficial da área.
A atuação governamental, curiosamente, se voltou em anos recentes para outro flanco que tem sido decisivo para o crescimento da indústria: a assinatura de acordos de cooperação no cinema com outros países. Os pedidos de aprovação de coproduções internacionais subiram de 56 em 2023 para 140 em 2025, sendo Portugal, França e Argentina os principais parceiros históricos do audiovisual brasileiro — e os Estados Unidos, um admirador mais recente. Assim, O Agente Secreto contou com o equivalente a 14 milhões de reais vindos de nações como França, Alemanha e Holanda — quase o dobro dos 7,5 milhões de reais que captou junto à Ancine. O restante de seu orçamento de 27 milhões de reais veio de patrocinadores privados. Um investimento que já traz retorno — e pode render mais, claro, com as possíveis indicações ao Oscar: somando as bilheterias nacional e estrangeira, o filme fez 52 milhões de reais até o momento.
Questões financeiras à parte, é indubitável que o cinema brasileiro ganhou musculatura desde os anos 1990, quando Central do Brasil e Fernanda Montenegro tiveram uma projeção até então inédita no Oscar. O acúmulo de casos bem-sucedidos — depois do filme de Walter Salles, vieram Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007) e, finalmente, Ainda Estou Aqui — obviamente trouxe mais atenção a nosso cinema lá fora. E o advento da era do streaming, capitaneado pela Netflix, criou uma vitrine global para o entretenimento na qual o Brasil vem surfando com a força natural de sua cultura e de seu colorido singular. Uma exposição que traz mais investimentos para cá, ao mesmo tempo que torna as produções locais mais afeitas a plateias diversas. Isso vale inclusive para os Estados Unidos, cujo público por muito tempo foi refratário a filmes com legendas. “O mercado americano está reconhecendo tardiamente que o cinema brasileiro é bom. Na Europa, já temos esse prestígio”, afirma Rodrigo Teixeira, produtor de Ainda Estou Aqui, que se prepara para lançar um novo filme no Festival de Berlim neste ano.
BOA SAFRA - O Último Azul (acima), Manas (à esq.) e Apocalipse nos Trópicos (à dir.): filmes premiados em festivais e documentário pré-selecionado pelo Oscar
Em paralelo com fenômenos como o longa estrelado por Fernanda Torres e O Agente Secreto, a produção nacional entrou em uma fase virtuosa, com filmes e séries de qualidade e popularidade medidas por prêmios inéditos — no ano passado, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, e Manas, de Marianna Brennand, levaram honrarias em Berlim e Veneza, respectivamente. Outra medida do sucesso são as visualizações em plataformas como a Netflix. No ranking semanal dos títulos mais assistidos globalmente, o Brasil vira e mexe ganha destaque.
Um desdobramento dessa interação é particularmente valoroso: a capacitação de profissionais da área para atuar nesse mercado vibrante. Nos últimos vinte anos, houve uma expansão de cursos técnicos e graduações universitárias voltados para o audiovisual e áreas da tecnologia afins em diversos estados, o que impulsionou o setor para além do tradicional polo de produção Rio-São Paulo. É o caso, sobretudo, de Pernambuco, cuja produção chega a seu auge de notoriedade com o filme de Kleber Mendonça Filho. “A junção de uma política de Estado com a linguagem inovadora dos criadores locais resultou no que vemos hoje”, analisa o advogado Diego Medeiros, autor do livro
MADE IN BRAZIL – Adolpho Veloso (à esq.) e Tânia Maria (à dir.): projeção de novos talentos
Importante notar que o novo cinema brasileiro vem conseguindo êxitos mesmo navegando, inevitavelmente, nas águas turbulentas da polarização política atual. Se Ainda Estou Aqui já cutucava suscetibilidades ideológicas com sua denúncia dos desmandos da ditadura militar, O Agente Secreto vai além: o filme pode ser visto como um libelo contundente contra o extremismo de direita. Como Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura fazem questão de vocalizar em alto som suas posições, o longa naturalmente entrou na mira do lado oposto da opinião pública. A despeito desses ruídos, O Agente Secreto segue em ascensão no exterior pelas razões que importam: é uma narrativa poderosa, com riqueza visual e antropológica irresistível, além de atuações afiadas. Não só de Moura: a trama revelou ao mundo o talento de uma atriz improvável, descoberta na maturidade, a potiguar Tânia Maria.
DISPUTA – Chalamet (acima) e Foi Apenas um Acidente: rivais do filme nacional
Ironicamente, a mensagem política que causa irritação em uma parcela das pessoas por aqui se mostrou um trunfo no exterior: a denúncia da opressão da extrema direita, afinal, virou deleite para os olhos de uma Hollywood acossada pelo governo Trump. O filme nacional dialoga, nesse sentido, com o grande favorito ao Oscar deste ano, Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson. Para o sucesso brasileiro chegar lá na maior premiação do cinema, contudo, terá de vencer desafios pela frente. Na categoria de filme internacional, o grande concorrente é o iraniano Foi Apenas um Acidente, outra bela produção sobre os perigos de um governo autoritário. No caminho de Moura está Timothée Chalamet, que entregou um trabalho impecável em Marty Supreme. Seja qual for o destino que o Oscar reserve a O Agente Secreto, o fato é que Hollywood já é nossa.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978