O pleito dos rejeitados | VEJA.com

BOLSONARO E HADDAD LIDERAM PESQUISAS, MAS REÚNEM OS MAIS EXPRESSIVOS ÍNDICES DE REPÚDIO. COM A VITÓRIA DE UM OU DE OUTRO, SÃO ALTOS OS RISCOS DE RETROCESSO
 

Candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad já colheu o bônus e o ônus decorrentes de sua ligação umbilical com o ex-presidente Lula. Em meados de setembro, saltou 11 pontos porcentuais em apenas sete dias, de acordo com o Ibope, consolidando-­se na segunda posição na corrida eleitoral. Na semana passada, sua rejeição disparou 9 pontos, de acordo com o Datafolha, o que o colocou no pelotão dos mais rejeitados, junto com Jair Bolsonaro. A razão da gangorra não é complexa: o lulismo é hospedeiro do antipetismo. O crescimento de um tem como consequência o fortalecimento do outro. E isso porque o PT é o responsável direto e inequívoco pela monumental crise moral, política e econômica que o Brasil atravessa — e sua volta ao poder seria um prêmio ao retrocesso.

Haddad tem suas qualidades pessoais. Apontado como um político moderado — “o mais tucano dos petistas”, diz o bordão —, ele formou-se em direito pela Universidade de São Paulo (USP), onde fez mestrado em economia e doutorado em filosofia, e teve a experiência de comandar a maior cidade do país — da qual saiu, no entanto, com popularidade abaixo de 15%, o pior índice em uma década e meia.

Mas o grande problema de Haddad é o que vem junto com ele. Além de ser o preposto de um presidiário, Had­dad traz consigo a soberba do PT, que patrocinou um desastre ético e econômico e, até o dia de hoje, foi incapaz de fazer qualquer autocrítica, o que autoriza os brasileiros a supor que, numa eventual volta ao poder, tudo pode se repetir. E a definição do que é “tudo” está nas palavras inesquecíveis do ministro Celso de Mello, no julgamento do mensalão, quando ainda não se conhecia o petrolão: “São homens que desconhecem a República, que ultrajaram as suas instituições e que, atraídos por uma perversa vocação para o controle criminoso do poder, vilipendiaram os signos do Estado democrático de direito”.

Na segunda-feira, o juiz Sergio Moro deu uma forcinha para que os eleitores não se esquecessem de nada disso. A seis dias da eleição, ele quebrou o sigilo de parte da delação do ex-ministro Antonio Palocci, que estava em seu poder desde junho. No trecho divulgado, Palocci diz que Lula sabia das traficâncias na Petrobras desde 2007 e orientou os companheiros a usar a exploração do pré-sal para levantar dinheiro sujo a fim de financiar o projeto de poder do partido. Segundo ele, as campanhas presidenciais de Dilma em 2010 e 2014 custaram juntas 1,4 bilhão de reais, quase três vezes mais que o valor declarado à Justiça Eleitoral.

Haddad não se envolveu nessa lama específica, mas, como seus colegas de sigla, recusa-se a fazer qualquer mea-culpa e declara que Lula foi preso injustamente. De forma protocolar, costuma repetir que quem errou deve pagar por seus erros, como se os escândalos fossem produto de deslizes pessoais. Não foram. O PT funcionou como uma “organização criminosa”, segundo denúncia apresentada à Justiça pela Procuradoria-Geral da República. O partido, que critica o desapreço de Bolsonaro pela democracia, também solapou as bases democráticas com o mensalão e o petrolão. Ex-chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu foi preso num escândalo e voltou para a cadeia no outro. Numa entrevista recente, afirmou que seria “uma questão de tempo pra gente tomar o poder”. Haddad teve de dizer que, num eventual governo seu, Dirceu “não terá nenhum papel”. Será?

Haddad parece não partilhar de posições extremadas, mas talvez seja o ápice da ingenuidade imaginar que, eleito, ele seria capaz de conter seus radicais. Na campanha, o ex-prefeito tenta equilibrar-se numa linha de ambiguidade. Enquanto a direção do PT presta solidariedade ao regime “democrático” venezuelano, ele permite-se apenas dizer que o país vizinho não vive uma situação de “normalidade”. Recentemente, afirmou que, se eleito, criará condições para a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte destinada a aprovar reformas. É um ardil, do qual o próprio Haddad parece discordar, mas que é obrigado a defender. Mau sinal. O balão de ensaio encontrou paralelo na campanha de Bolsonaro, cujo vice, o general Hamilton Mourão, propôs a convocação de uma comissão de notáveis para reformar a Constituição.


CRIME E PERDÃO – O escândalo da Petrobras levou para a cadeia Lula e os dois mais importantes e influentes líderes do partido, os ex-ministros José Dirceu (acima, à dir.) e Antonio Palocci (abaixo) — todos condenados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Palocci fez um acordo de delação premiada e afirmou que o ex-presidente não só sabia do esquema como se beneficiava do dinheiro desviado. Apesar disso, é Lula quem abertamente continua a dar as cartas na campanha de Fernando Haddad. O candidato nega que, se eleito, dará indulto a Lula, mas prometeu empregar todas as formas jurídicas para livrá-lo da prisão.
 

Ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, Haddad nunca participou ativamente da vida partidária do PT, o que provoca choques constantes entre o que ele pensa e o que o partido determina que ele faça. Recentemente, o candidato desautorizou publicamente um de seus conselheiros econômicos, para quem a reforma da Previdência não é urgente. Além disso, rechaçou a ideia do seu próprio programa de governo segundo a qual o Banco Central deve perseguir não só a meta de inflação mas também uma meta de geração de emprego.

No programa de governo do candidato, estão todos os pilares do pensamento petista: revogação da emenda do teto de gastos públicos e da reforma trabalhista e “recuperação do pré-sal”, cuja exploração, segundo a delação de Palocci, foi pensada como forma de financiar as campanhas do partido. Sem entrar em detalhes, o plano também fala em usar os bancos públicos para promover o desenvolvimento regional — o que pode ser uma boa ideia mas evoca pesadelos. Nos governos do PT, as arcas do BNDES bancaram a política de campeãs nacionais, como a JBS e a Odebrecht, que devolviam o agrado na forma de propinas milionárias.

A volta do PT ao poder traz uma ameaça de vingança contra setores que, a seu ver, são “golpistas”, como a imprensa, o Ministério Público e o Judiciário, que tiveram papel relevante na descoberta das roubalheiras petistas. Além da proposta de retirar os poderes do Ministério Público feita por José Dirceu, o partido pretende implantar o que chama de “controle social da mídia” — o que pode ser visto como um eufemismo para definir censura. Isolado politicamente desde o impeachment de Dilma Rousseff, o PT também já tem pronta uma estratégia para se viabilizar num eventual segundo turno e para garantir uma futura governabilidade. Lula aconselhou Haddad a manter as portas abertas para alianças com o MDB e o Centrão — os expoentes de sempre do fisiologismo, os velhos parceiros do PT nos esquemas de corrupção. De sua cela em Curitiba, Lula continua dando as cartas. A vitória de Haddad será a vitória do ex-­presidente. Haddad jura que não concederá indulto a Lula, mas prometeu empregar todas as formas jurídicas possíveis para livrá-lo da prisão. Para onde quer que se olhe, o cenário parece remontar a tragédia que o país já conheceu e da qual está sofrendo para sair.

A eleição presidencial de 2018 ficará marcada tanto pelas certezas que jogou por terra quanto pelos fenômenos que revelou. Na primeira categoria, basta lembrar que coligações partidárias, tempo de TV, dinheiro e um marqueteiro bem pago eram, até quatro anos atrás, cláusulas pétreas de uma candidatura vitoriosa. Nesta, de nada valeram. A prova do axioma pode ser resumida numa constatação que de tão bizarra parece um meme, mas não é: o Cabo Daciolo, que declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter gasto até agora 738,37 reais em sua campanha, está tecnicamente empatado com o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que sacou 43 milhões de reais do próprio bolso para bancar a sua, ao que tudo indica, fracassada candidatura. Detalhe: o cabo pertence ao Patriotas, partido fundado há seis anos, com menos de 80?000 apoiadores no país. Meirelles é do MDB, sigla que existe desde sempre, tem 3,4 milhões de filiados e 5?346 diretórios espalhados pelo país.

Na outra ponta — a dos fenômenos inéditos e surpreendentes, às vezes estarrecedores —, já é possível afirmar que este foi o pleito do WhatsApp, do partido de um homem só, da polarização e dos paradoxos, como o que estabeleceu que os candidatos mais rejeitados podem ser também os favoritos. Em pesquisa do Datafolha, o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, tinha 45% de rejeição e Fernando Haddad, do PT, 41%, os maiores índices entre todos os concorrentes. Isso sem contar que a disputa começou com um candidato preso e outro esfaqueado.

A campanha de 2018 revirou de cabeça para baixo os parâmetros das eleições presidenciais tais como o Brasil se acostumou a vê-las — e a Lava-Jato teve uma significativa participação nisso. Analistas concordam que, ao revelar as vísceras da corrupção no país e aprofundar o desgaste da classe política, a operação ajudou a alavancar a popularidade de candidatos outsi­ders ou identificados como tal — caso do veterano deputado Bolsonaro, vendido e comprado como “novidade” eleitoral. A abundância de candidaturas saídas da caserna tem a mesma origem, afirmam especialistas. O fato de uma parcela da população associar os militares à garantia da lei e da ordem estimulou mais de 100 a disputar cargos legislativos neste ano, outro recorde deste pleito.


Polarização - Sarney passa a faixa para Collor, em 1989: até então, era o pleito mais extremado
 

O descrédito em relação aos políticos explica ainda a inédita parcela de eleitores que dizem pretender votar nulo ou em branco — a poucos dias do primeiro turno, eles somam 11%, segundo o Ibope, sendo que o recorde no mesmo período era de 7%, registrado na eleição de 1998.

Não é preciso esperar o resultado do dia 7 para afirmar que a eleição de 2018 será também lembrada como a ocasião em que um ex-folclórico e ex-­obscuro parlamentar concorrendo por um partido nanico, e com dezesseis segundos na TV, deixou comendo poeira, entre outros, um tucano histórico, dono de uma coligação de seis partidos e onze minutos de propaganda na TV. Na quarta-feira 3, segundo o Ibope, Bolsonaro tinha oscilado de 31% para 32% nas intenções de voto e Geraldo Alckmin havia caído de 8% para 7%.


Recorde - O tucano Beto Richa: um dos 45 candidatos suspeitos de corrupção
 

Para o filósofo Roberto Romano, o mesmo sentimento de frustração do eleitor diante das descobertas feitas pela Lava-­Jato é o que está por trás da polarização jamais vista no cenário eleitoral brasileiro — mais da metade das intenções de voto (55%) recai hoje sobre os dois extremos da disputa, o que não ocorreu nem em 1989, quando Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pontuavam, juntos, 41% nas intenções de voto antes do pleito. “Grande parte dos eleitores está mais do que insatisfeita”, diz Romano, que também é professor de filosofia política na Unicamp. “Está com raiva, e essa raiva está sendo expressa dessa forma”, acrescenta.

Fora do escopo da operação que expôs o gigantismo da corrupção na política nacional, outro fenômeno mostrou que as eleições presidenciais nunca mais serão as mesmas depois desta. Redes sociais como o WhatsApp foram os grandes cabos eleitorais de candidatos tanto nos centros urbanos quanto nos rincões. O Datafolha revelou que 68% dos eleitores possuem conta em pelo menos uma rede e, entre os jovens, o porcentual atinge 93%. Metade dos eleitores assiste a vídeos de política na internet. No caso dos eleitores de Bolsonaro — que tem 12 milhões de seguidores nas redes, o maior número entre os presidenciáveis —, 61% disseram se informar sobre política por meio do WhatsApp. “Acabou o folclore de que a TV consegue resolver tudo, ou quase tudo, em uma eleição”, afirma Maurício Moura, sócio da consultoria Ideia Big Data. Na hipótese mais provável de haver segundo turno, as eleições de 2018 ainda terão vinte dias para terminar, mas o rastro de perplexidade que elas terão deixado, seja quem for o vencedor, levará mais tempo para ser apagado.


 
Publicado em VEJA de 10 de outubro de agosto de 2018, edição nº 2603