De astronauta a goleiro | VEJA.com

Na Rússia, o futebol perdeu espaço para o hóquei no gelo, mas ainda é uma ponte entre o presente e a nostalgia do tempo de Iuri Gagarin e Lev Yashin

A Copa do Mundo seria uma oportunidade de fazer crescer o interesse pelo futebol na Rússia — o esporte é praticado em campos amadores por todo o país, mas sem muita paixão. Ao que tudo indica, porém, a oportunidade será perdida, e nesse aspecto as semelhanças com o Brasil são muitas. Lá como cá, o futebol já não é o ópio do povo. O Datafolha publicou recentemente uma pesquisa que mostra que 41% dos brasileiros não têm interesse por futebol — um aumento de 10 pontos porcentuais em relação ao levantamento anterior, de oito anos atrás. Entre os que disseram ter grande interesse, houve uma queda de 32% para 26%. Lembrar que, entre uma pesquisa e outra, ocorreu uma Copa no Brasil, em 2014, traz a constatação de uma pequena tragédia. Não há estatística precisa sobre os humores russos em relação ao futebol, mesmo porque eles nunca foram tão devotados como os brasileiros. Mas pode-se apostar que a Copa não dará grandes frutos, além da alegria momentânea. Ao contrário, pode resultar até em muita confusão mais tarde.


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O nome do jogo da confusão é corrupção. Boa parte dos russos foi contra a realização da Olimpíada de Inverno de Sochi, em 2014 (os jogos mais caros de todos os tempos, com custo estimado em 50 bilhões de dólares, o equivalente a 185 bilhões de reais), e da Copa (orçada em quase 11,8 bilhões de dólares, cerca de 38 bilhões de reais, 5 bilhões a mais que o gasto no Mundial do Brasil). O imponente Estádio Krestovsky, em São Petersburgo, que durante o Mundial será chamado de Zenit Arena, foi alvo das maiores contestações: a obra, que lembra um disco voador e está encravada em uma ilha banhada pelo Rio Neva, demorou incríveis dez anos para ser concluída, entre reformulações, atrasos e polêmica. Segundo o governo, gastou-se o equivalente a 2,3 bilhões de reais, mas investigações paralelas estimam o dobro dessa quantia — o Mané Garrincha, o estádio mais caro da Copa no Brasil, custou cerca de 1,5 bilhão de reais. O Zenit (do qual Putin é torcedor) foi presidido na década passada por Vitaly Mutko, o controverso Senhor Esportes da Rússia, envolvido até o pescoço no escândalo de doping no atletismo do país. Há outra infeliz semelhança entre Brasil e Rússia: a escolha questionável das sedes. Aqui, cidades mais recomendáveis como Goiânia e Belém foram preteridas por Cuiabá e Manaus. Na Rússia, o candidato a elefante branco é a arena de Saransk, cidade com pouco mais de 300?000 habitantes e nenhum clube na primeira divisão. Ficou de fora Krasnodar, que tem clube relevante e um dos estádios mais bonitos da Europa.

As acusações de desvios, falcatruas e desperdício não fazem Putin piscar. Recentemente, Boris Johnson, ministro inglês das Relações Exteriores, protagonizou um incidente diplomático ao dizer que o presidente russo usa a Copa como propaganda política, “como Hitler fez com a Olimpíada de Berlim, em 1936”. O Kremlin classificou a comparação como “nojenta” e mandou o jogo seguir, porque seu projeto de poder pressupõe que venham aí outros gagarins e yashins, astronautas e goleiros.

 

Publicado em VEJA de 13de junho de 2018, edição nº 2586